Tarifaço dos EUA pressiona exportadores e empregos
Tarifaço dos EUA já acrescentou quase três pontos percentuais aos preços pagos pelos consumidores norte-americanos, segundo o Federal Reserve de Nova York, e começa a redesenhar as exportações brasileiras, com reflexos diretos sobre fábricas e vagas de trabalho.
Calçados são os mais expostos
A sobretaxa de até 25% atinge em cheio a indústria calçadista. Entre janeiro e agosto, o Brasil enviou 62,45 milhões de pares ao exterior — retração de 7,5% — e faturou US$ 541,45 milhões, queda de 16,8%. Para os Estados Unidos, o recuo na receita chegou a 22,8%, mesmo com redução de apenas 4,1% no volume.
Empresas como a Rafarillo, de Franca (SP), renegociaram contratos, cortaram custos e enxugaram pessoal. A Abicalçados projeta perda de mais de 5 mil vagas diretas se as tarifas forem mantidas.
Açúcar e etanol: cenários distintos
No complexo sucroenergético, o açúcar brasileiro enfrenta sobretaxa extra de 25%, enquanto o etanol continua em disputa na Organização Mundial do Comércio. A Unica sustenta que a política brasileira de biocombustíveis não discrimina produtores estrangeiros. Parte da cana que não encontrar espaço lá fora pode ser absorvida internamente, pressionando preços para baixo — algo que depende de câmbio, demanda e capacidade de estocagem.
Máquinas sentem tarifa e mercado interno fraco
Para a indústria de máquinas, a pressão vem de dois lados: sobretaxas nos EUA e demanda doméstica debilitada pelos juros altos. No primeiro semestre, o faturamento caiu 13,6% e as vendas internas recuaram 17%, segundo a Abimaq. Exportar para outros destinos amenizou parte da perda, mas não evitou demissões.
Quando o bolso do brasileiro sente?
Ao contrário do efeito direto sobre os preços nos EUA — já 2,9% mais altos —, o impacto imediato no Brasil recai sobre o emprego. Menos pedidos de compradores norte-americanos significam cortes de turnos, adiamento de investimentos e redução de vagas. Apenas se o real se desvalorizar, encarecendo importados como combustíveis e fertilizantes, o consumidor poderá perceber aumento de preços.

Imagem: Internet
Um levantamento do Fed de Nova York indica que uma tarifa global de 10% elevaria 2,6% a inflação nos EUA em um ano, reforçando que os desdobramentos de medidas protecionistas transcendem fronteiras.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, 23,1% das exportações brasileiras aos EUA já sofrem algum nível de tarifação, e 16,5% enfrentam alíquota combinada de 37,5%. A capacidade de redirecionar essas vendas para Ásia, Europa ou mercado interno será decisiva para preservar empregos nos próximos meses.
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Crédito da imagem: Joel Silva/Reuters
