Empréstimos caros prendem entregadores argentinos aos apps
Empréstimos caros estão se tornando a única saída para entregadores argentinos que têm as motos apreendidas em Buenos Aires, reforçando a dependência dos aplicativos de delivery que garantem sua renda diária.
Dois dias de renda viram dívida longa
Para recuperar o veículo retido, o trabalhador precisa desembolsar em média 140 mil pesos (cerca de US$ 90) em multas e taxas — valor equivalente a dois dias de trabalho de Albert Quintero, 41 anos, que ganha cerca de 70 mil pesos por dia entregando refeições. Sem recursos imediatos, muitos recorrem a fintechs ou ao crédito oferecido pelos próprios aplicativos.
Juros anuais acima de 100%
A plataforma PedidosYa, por exemplo, financia a dívida dos entregadores com taxa anual de 131%. Já a carteira digital Personal Pay cobra perto de 170% ao ano. Segundo a Câmara Argentina de Fintech, o volume de contratos concedidos por empresas do setor saltou de 500 mil para 10 milhões em sete anos, multiplicando por 20 o alcance do crédito digital.
Calote cresce e atinge um terço dos tomadores
Quase 6 milhões de argentinos acumulam atrasos superiores a 90 dias, o que representa cerca de um terço dos devedores. Dados do Banco Central mostram que, em junho, 12,8% das operações às famílias estavam inadimplentes — maior nível desde 2010. Quando Javier Milei assumiu a Presidência, no fim de 2023, o índice era de 2,8%.
Do alívio da inflação ao peso dos juros reais
Analistas explicam que, durante anos, a alta inflação reduzia o valor real das dívidas. Agora, com taxas de juros acima da inflação, o passivo pesa mais no orçamento, tornando o pagamento dos empréstimos ainda mais difícil, principalmente para jovens que acessam crédito via carteiras digitais sem perceber o custo efetivo.
Governo resiste a socorrer endividados
Diante dos apelos de sindicatos e entidades de defesa do consumidor, o governo Milei alega que o endividamento é um acordo privado entre credor e devedor. O crédito privado soma hoje 12% do PIB argentino, muito abaixo dos quase 80% observados no Brasil, segundo levantamento do serviço internacional de notícias Reuters.

Imagem: Internet
No Brasil, a preocupação é semelhante: autoridades também discutem o impacto de linhas caras e critérios frouxos sobre o orçamento das famílias.
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Crédito da imagem: Mariana Nedelcu / Reuters
