Câmeras com IA preveem crimes e geram debate sobre privacidade
Câmeras com IA estão deixando de apenas registrar imagens para, agora, tentar prever crimes antes que aconteçam. A tecnologia, conhecida como policiamento preditivo, transforma vídeos em metadados, compara esses dados com padrões previamente aprendidos e emite um alerta quando detecta algo fora do comum, como uma pessoa parada por muito tempo em frente a um portão.
Como o sistema identifica comportamentos suspeitos
A brasileira NoLeak, que já conecta mais de 5 mil câmeras em indústrias e condomínios, explica que o software “observa” duas semanas de imagens para aprender o que é considerado normal em determinado ambiente. Depois desse período, qualquer movimento atípico dispara um aviso que chega ao operador de segurança, responsável por decidir se aciona a polícia ou a equipe interna. Segundo a empresa, a automação reduz o cansaço visual dos operadores e permite monitorar até dez vezes mais câmeras com o mesmo quadro de funcionários.
Outras fornecedoras, como Actuate, AxxonSoft e Coram, oferecem recursos semelhantes, capazes inclusive de verificar se funcionários deixaram o posto ou se máquinas da linha de produção pararam sem aviso.
Riscos e questionamentos de especialistas
Para Fernanda Rodrigues, coordenadora de pesquisas do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH), a expansão dessa ferramenta precisa ser acompanhada de transparência e auditorias independentes. Ela lembra que sistemas parecidos, usados nos Estados Unidos, reforçaram a vigilância em bairros de baixa renda e apresentaram vieses raciais. Um relato da BBC sobre o caso PredPol mostrou aumento de abordagens injustificadas a moradores negros e latinos, fato que levou a polícia de Los Angeles a abandonar o programa em 2020.
No Brasil, não há legislação específica para policiamento preditivo. A Lei Geral de Proteção de Dados impõe regras ao uso de informações sensíveis, e uma portaria do Ministério da Justiça, publicada em 2025, exige revisão humana quando há risco a direitos fundamentais. Além disso, um projeto de lei em discussão na Câmara quer classificar como “alto risco” qualquer sistema de IA usado por forças policiais para análise de grandes volumes de dados, estipulando avaliação de impacto, direito à explicação e medidas contra discriminação.

Imagem: Internet
Futuro incerto entre eficiência e privacidade
Empresas destacam ganhos de produtividade e segurança patrimonial, mas organizações de direitos civis alertam para a criação de um Estado de vigilância permanente. Enquanto a promessa de antecipar delitos seduz gestores de segurança, a ausência de métricas públicas sobre precisão e vieses mantém acesa a discussão sobre até que ponto a sociedade está disposta a trocar privacidade por prevenção.
Quer entender mais sobre o impacto da tecnologia no dia a dia? Acesse a editoria Tech e acompanhe nossas próximas análises.
Crédito da imagem: Reprodução/NoLeak
