Bitcoin em El Salvador perde status de moeda oficial
Bitcoin em El Salvador já não é mais moeda de curso legal. Cinco anos após o presidente Nayib Bukele adotar a criptomoeda como dinheiro oficial, ao lado do dólar, a Assembleia Legislativa revogou o caráter obrigatório de aceitação em janeiro de 2025. A mudança atendeu a exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), que condicionou um financiamento de US$ 1,4 bilhão à “redução dos riscos associados ao bitcoin”.
Do entusiasmo à baixa adesão popular
O projeto começou em setembro de 2021, quando El Salvador se tornou o primeiro país a oficializar o bitcoin. O governo criou um fundo de US$ 150 milhões, distribuiu um bônus de US$ 30 em carteira digital e instalou centenas de caixas eletrônicos. Pesquisas, porém, mostraram ceticismo: estudo da UCA apontou que 71 % da população não viu benefício econômico direto, e, em 2025, 91,8 % dos salvadorenhos disseram não ter usado a criptomoeda no ano anterior.
Planos ambiciosos que não saíram do papel
As promessas incluíam a construção da Bitcoin City ao pé do vulcão Conchagua, financiada pelos “títulos vulcão” – dívidas lastreadas em bitcoin. Nenhum dos dois projetos avançou. Hoje, o governo possui 7.798 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 636 milhões, mas compras futuras com recursos públicos foram suspensas após diálogo com o FMI.
Remessas e inclusão financeira limitadas
Uma das justificativas oficiais era baratear as remessas dos 2,5 milhões de salvadorenhos no exterior, responsáveis por quase um quarto do PIB. Entre janeiro e abril de 2026, só 0,7 % dos US$ 3,3 bilhões chegou via criptomoedas. Especialistas da London School of Economics afirmam que as altas taxas se mantêm porque remetentes e destinatários continuam preferindo dinheiro em espécie.
A carteira Chivo passa ao setor privado
Em setembro último, Bukele transferiu o controle acionário da carteira estatal Chivo para a empresa Linguard Labs, prometendo relançar o aplicativo com microcrédito e transferências gratuitas. O Estado permanece como sócio minoritário.

Imagem: Internet
Legado e lições da experiência
Para críticos como o ex-presidente do Banco Central, Carlos Acevedo, “o experimento fracassou nos objetivos de inclusão e remessas, mas não causou perdas líquidas ao Tesouro”. Já defensores veem valor simbólico: El Salvador “validou” a tese de que governos podem adotar criptomoedas, ainda que de forma temporária.
Com a retirada do bitcoin do centro da política monetária, o país volta a apostar na segurança pública e em acordos multilaterais para atrair investimentos. Quer entender outros impactos econômicos na região? Visite nossa seção de Finanças e continue acompanhando análises sobre mercados e tecnologia.
Crédito da imagem: AFP via Getty Images
